terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Às vezes me sinto como uma atriz. Sempre interpretando, fingindo sentir o que não sinto.

É como se eu estivesse no palco em plena luz do dia e a platéia esperasse muito de mim. Além de interpretar, preciso estar bonita, ser magra, andar com delicadeza e falar com muita clareza. Preciso estar bem vestida, mesmo que seja com uma roupa simples. Estilo é necessário sempre. Minhas unhas precisam estar bem feitas e não posso usar cor escura, pois se o fizer, não serei taxada de boa moça. E que meus problemas sejam todos deixados de lado. Afinal, tenho toda uma platéia para agradar.

E é quando entro em cena. Justamente quando ninguém me espera. E entro cantarolando. Encaro o público, em êxtase. Toda a tensão que se escondia no silêncio cai sobre mim. Dou uma gargalhada. Não dizem que a vida é tão bela? O que posso fazer, senão entorná-la como uma deliciosa taça de vinho português? Começo minha impecável transformação. Não sou mais apenas uma mulher interpretando personagens num lugar qualquer: sou uma atriz no palco da vida, onde meus olhos são cegados pelos refletores. E confesso que sou uma boa atriz. A arte de interpretar, como muitas outras, corre no meu sangue. A única coisa certa é que não é meu dom ser normal. Gosto quando reina o caos dentro de mim. Quando o amor fala mais alto do que meu próprio grito e algo tão simples como o arfar de asas de um passarinho, consegue provocar uma explosão.

Falei tanto e acabei não dizendo qual é o meu papel. Pra dizer a verdade, cada dia é um. Hoje, não sou protagonista. Dei mais importância a outras pessoas do que a mim e isso não é algo de que eu me arrependa. Hoje resolvi ser uma personagem secundária, que com certeza ninguém notou. Sou uma rosa vermelha no cenário. Eu sei cantar em silêncio. Desabrocho quando tenho o elemento essencial para viver na quantidade perfeita. Não muito, não pouco: o suficiente. Sou o presente mais simples e de maior impacto que alguém pode receber, desde que não me arranquem os espinhos, pois estes, ainda que não pareçam, fazem parte do meu encanto.

Daqui onde estou, vejo tudo acontecer. Sem dar as minhas opiniões. Apenas analisando. Friamente ou não.

E quando as cortinas se fecharem, eu serei aplaudida com entusiasmo pela platéia que não sabe que estou ali. Que me aplaude inconscientemente.

Não estou sendo convencida, apenas sei que um dia, alguém vai me notar e fazer a questão de me roubar. Meu encanto é como o vento. Como a revolta do mar: contra ele, ninguém pode lutar.




Or it's melted or it's turned into a stone. Either ways, it's not here at all.
Oh yes, I'm talking 'bout my heart.





9 dias (:

2 comentários:

daniel disse...

Oi!
gostei muito do seu texto, da pra ver claramente que você buscou as palavras la do seu interior mais profundo!
lindo! linda!
parabens!
bjs

Daniel

Luiz Gonçalves disse...

Acho que vou ser mais assíduo no seu blog, dona Eloá. Texto MUITO bonito... Me lembrou um pouco da minha pequena introdução do meu falecido blog (que o Google o tenha).

Enfim... Nem tenho palavras. MUITO bom... Lindo texto. Lindas palavras.