terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O tempo voa (ou não)


Ela olha para os lados, entorna um gole de café e pensa. Tamborila os dedos na mesa. E espera.
Lança um olhar no relógio, compõe uma canção no pensamento.
As gotas frias de suor lhe escorrem pelo rosto. Muda o sofá de lugar, pega o telefone, liga, ouve a linha. Pensa em discar, mas logo desiste. Volta o telefone no gancho. Apanha um pedaço de papel e rabisca um nome. O mesmo nome que jamais deixa seu pensamento e menos ainda o coração, afinal, dizem que se ficar pensando em alguma coisa por muito tempo, uma hora acaba acontecendo. Ela não sabe se acredita nisso ou não. Joga a cabeça graciosamente para trás e ri. Um riso de ironia. Como poderia acreditar em qualquer coisa se já havia matado todas as esperanças? Não conseguiria. É impossível. Justo para ela, que o impossível não existia. Decide, por fim, jogar tudo pro alto.
Estrala os dedos. Pega o violão e monta um acorde sustenido. Gosta do som. Sorri levemente dando um viva aos prazeres do som. Apenas lamenta por essas (poucas) vezes em que a música não dá um fim em sua ansiedade.
Folheia uma revista, mas logo se cansa de tanta futilidade. Joga-a num canto.
Outro gole de café e o coração é estilhaçado. Derrama uma lágrima e se arrepende muito antes do segundo seguinte chegar. Sente raiva dos seus sentimentos. Deseja que eles não existam. Deveria ser como a maioria. Não deveria se importar, muito menos esperar por qualquer coisa. Quer, mas não consegue ser assim. Gosta dos sonhos e das entrelinhas. Acredita no amor mais do que qualquer outro ser que é capaz de respirar. Sofre na mesma intensidade que ama, mas não tem medo da dor. Seja isso um problema ou não. Sempre pensou que não ter medo da dor não é sinônimo de masoquismo.
Perde o pouco da paciência que lhe resta. Levanta. Arruma a casa, deixa tudo brilhando. Toma uma ducha e veste uma roupa deslumbrante. Vermelha. Coloca o salto mais alto e namora o espelho.
Pensa. Respira.
Senta na cadeira, pega outro pedaço de papel e escreve um poema. Quer ser perfeita, sem saber que perfeito seria vê-la assim, tão nervosa.
Olha fixamente para a porta. Apura os ouvidos. Não há passos. Checa o celular pela milésima vez naquele dia e não está tocando. Não há mensagens. Não há esperança.
Sorri de novo. Dessa vez, com um pouco de tristeza. Logo se conforma.
Lança outro olhar no relógio. Caminha lentamente em direção à porta. Hesita. Recua alguns passos. Senta e leva as mãos ao rosto. Inspira. Expira.
E por fim, se cansa de esperar. Decide ir embora para sempre. Levanta-se com agilidade. Está convencida. Aperta os olhos. Seus passos são firmes. Avança sem olhar para trás. Coloca a mão na maçaneta.
Então, a campainha toca.






E ela coloca tudo a perder.





***
Não sei qual é o meu problema, mas há meses não consigo escrever poesias. Assim que conseguir, postarei aqui.

Desafinei meu violão de uma forma que ficasse afinado e fiz uma música linda.
Faltou modéstia, eu sei. Não ligo nem um pouco.
Agora só preciso da letra. E não consigo escrever.
Perfeito. Simplesmente MARAVILHOSO.
#comofaz?
humpf.




Ai. Sono.
Boa noite.



Nas entrelinhas.... estrelinhas!

Um comentário:

Luiz Gonçalves disse...

Engraçado... pra mim nunca foi um problema escrever poemas. Mas uma música... é outra história (claro, não sei tocar instrumento nenhum)

Texto lindo... realmente. Inspirado em cada letra. Quase como se uma mente perturbada pela dor se materializasse em uma cena virtualizada em um texto. Pierre Levy adoraria isso!

Mas, sobre o objeto principal do texto - a dor em amar -, não tenho nada a comentar... Eu já desisti disso tudo.

Espero que você não... Isso claramente te inspira.